domingo, 22 de novembro de 2009

«Curiosidades FCP» - O adeus de Sérgio Conceição

Hoje, o ‘Paixão pelo Porto’ presta homenagem a Sérgio Conceição, o último de uma geração de amigos e ex-jogadores do FC Porto (que incluía, entre outros, Vítor Baía, Jorge Costa, Fernando Couto, Folha e Domingos) a dar por terminada a carreira de jogador. Este ex-extremo-direito do FC Porto e da Selecção nacional foi um dos jogadores que ficou ligado ao único «pentacampeonato» da história do futebol português.
Sérgio Conceição representou 10 (!) clubes ao longo da sua carreira, no entanto, o FC Porto e a Lazio foram os únicos aos quais acabou por regressar. Penafiel, Leça, Felgueiras, Parma (Itália), Inter de Milão (Itália), Standard de Liége (Bélgica), Al Qadisiya (Emirados Árabes Unidos) e PAOK (Grécia) foram os outros clubes que o dedicado e corajoso ex-jogador do FC Porto representou.
Além de ter sido um excelente profissional, Sérgio Conceição também será para sempre recordado como um homem de perfil genuíno e autêntico. O estilo frontal e irreverente que sempre cultivou ficou bem demonstrado numa das últimas entrevistas que concedeu à imprensa portuguesa. Recordamos aqui essa entrevista (publicada no jornal “i”) e aproveitamos também para recuperar algumas fotos e curiosidades que marcaram a sua carreira.
- Faz hoje 11 anos que se estreou no estrangeiro. Qual a diferença de 1998 para 2009?
- Já foi há tanto tempo, mas não senti o tempo passar. Ou seja, sei que foram 11 anos e também sei que os aproveitei bem. Estive em grandes equipas. E a estreia ninguém esquece, não é? Foi pela Lazio, em Turim, e marquei o golo da vitória (2-1) sobre a Juventus aos 90'+3. Naquela altura, a Supertaça decidia-se no estádio da equipa campeã. A Juventus, nesse caso. Está a ver? Uma diferença de 1998 para 2009: este ano, a Supertaça italiana jogou-se fora de Itália, em Pequim.
- Foi o herói do jogo mas a imprensa italiana trocou o seu nome...
- É verdade! Entre Sérgio e Flávio Conceição, vai uma grande diferença. Eu sou português, ele brasileiro. Eu jogava em Itália, ele em Espanha (Deportivo). No dia seguinte, quando li isso, fiquei... Imagina? Mas demonstrei o meu valor aos italianos ao longo dos tempos. Na Lazio, fui campeão nacional, levantei a Taça das Taças. Joguei no Inter, o que por si só já é uma vitória, e também no Parma, que ficou em segundo lugar naquele ano (2000-01). Sou Sérgio e eles (jornalistas) já sabem disso, à conta de vitórias.
- Naquela altura, em 1998, trocou o Porto por Roma. Sentiu a diferença?
- Muito, muito, muito. Foi difícil. Não a adaptação à língua, à comida, ao país e aos costumes. Foi difícil sair do núcleo do FC Porto, onde tudo é uma família, que comia junta, pelo menos uma vez por semana.
Quando cheguei à Lazio, percebi logo que o ambiente era mais frio. Era cada um por si. Atenção que isto não é uma crítica. É normal em toda a parte do mundo - e já andei por muitos clubes (Lazio, Inter, Parma, Standard, Al Qadisiya e PAOK). A família do FC Porto é que é diferente, para melhor.
- Escolha onze jogadores com quem jogou no estrangeiro. Comecemos pela baliza.
- (sem hesitar) Buffon. Convivi com ele um só ano no Parma e deu para perceber a qualidade futebolística e humana. Comparo-o ao Baía. Sabe o que tinha o Buffon dentro do cacifo no Parma? Nem vai acreditar! Um poster dos adeptos do Carrarese, o clube da sua terra (Carrara). Ia ver os jogos deles nas folgas.
- Na defesa.
- Na direita, Zanetti, 'il capitano' do Inter. Que classe, dentro e fora do campo. No meio, Cannavaro e Nesta. Fui companheiro deles no Parma e na Lazio, respectivamente. A Itália concorda com esta dupla. Na esquerda, quem há-de ser? Quem há-de ser? Meta aí o Córdoba (central colombiano do Inter). É boa gente. Atenção: Thuram (Parma) é suplente.
- E os três do meio-campo?
- Outra pergunta difícil. Matías Almeyda, o argentino. Fomos juntos da Lazio para o Parma, em 2000. Depois, o Roberto Mancini, que jogou comigo na Lazio e até chegou a ser meu treinador, e o Verón, também da Lazio. Deste meio-campo, só o Almeyda é boa gente. Mancini era sensacional mas nunca gostei dele. Tinha cá umas manias... Ao Verón também ninguém lhe ensinava nada, mas não era boa onda. Um filósofo, bem-falante, mas nada bom companheiro. Desses três, dois não prestam para nada e só jantaria com o Almeyda. No banco, Seedorf e Pirlo (ambos Inter, hoje ambos Milan). - Falta o ataque.
- Escolho Vieri, Ronaldo Fenómeno e Boksic, que andava sempre lesionado mas quando jogava, vai lá vai. Tinha cá uma força. Deixo de fora, Adriano, Salas, Crespo...
- E quem treinaria esta equipa?
- Tive tantos bons. Cúper, responsável pela minha chegada ao Inter, Malesani, Sacchi. Escolho o Sacchi, que treinou o Parma, por tudo aquilo que representa para o futebol mundial, por tudo aquilo que ainda é para os italianos. É o Sacchi, definitivamente.
- E o Eriksson?
- Sim, pensei nele. É um 'gentleman'. Mas prefiro o Sacchi. Com Eriksson, joguei a época inteira e fui suplente na final da Taça das Taças. Sabe porquê? Porque ele gostava muito do Mancini e este andava quase de braço dado com o Mihajlovic, ao ponto de ter sido seu adjunto no Inter. Ora, o Mihajlovic era o melhor amigo do Stankovic, agora no Inter. Nessa final, adivinhe quem jogou? Stankovic, pois claro! Eu, banco! Eriksson é um 'gentleman' mas não alinho com pessoas que fazem panelinha com os outros. É igual ao Scolari.
- Então?
- Agora, não tenho tempo para isso.
- Para isso, o quê?
- Para o Scolari. Se lhe contasse coisas sobre ele, nunca mais saía daqui.
- Diga só uma, então.
- Só uma? Não posso! Não consigo! Como é que vou falar de um homem que chegou a Portugal, saiu daí sem ganhar nada e ainda é bem-visto? Dou valor é ao Queiroz, que ganhou dois títulos mundiais com os juniores. E também ao Humberto Coelho. Bolas, com ele, ganhávamos a dar espectáculo. Mas alguém duvida de que o Euro-00 foi o expoente máximo da geração de ouro? Alguém duvida? Não brinquem comigo!
- Com Scolari...
- Estive nove meses, mas a primeira reunião dos capitães - eu, Couto, Figo e Rui Costa - foi suficiente para o entender. Chamou-nos à parte e disse-nos que estava ali para treinar a Selecção e dar o salto para um grande europeu. Mas estamos a brincar ou quê? Mas que é isto? Um homem na Selecção, que deve ser um privilégio, o maior privilégio, e ele só pensava em sair para um grande da Europa. Mas brincamos ou quê? Falava em seriedade e disciplina. Aliás, afastou carismáticos, como Baía e João Pinto, com base na disciplina. Isso é tudo muito bonito, mas ele não aplicava a regra. Nos almoços da Selecção, a mesa dos jogadores é sempre maior que a dos treinadores, porque há mais jogadores que treinadores. Com o Scolari, não! A nossa tinha 18/20 pessoas. A dele era maior. Mas estamos a brincar? Mas estamos onde? Ele levava os amigos brasileiros, os amiguinhos da Nike. Sim, porque ele é patrocinado pela Nike e entre um jogador da Nike e um da Adidas, escolhia sempre o da Nike. Mas depois, lá vinha com a lengalenga da disciplina. Então mas eu, que nasci em Coimbra, em Portugal, deixo-me ficar? Numa situação destas, deixo de agir? Mas estamos onde, pá? Que é isto? Ele ganhou o quê? Foi a uma final em casa e perdeu-a (Euro-04). Mas há mais.
- Quem?
- O Dr. Merdaíl. Disse Merdaíl? Enganei-me. É Madaíl, Madaíl. Depois do fiasco do Mundial-02 (Portugal eliminado na fase de grupos por EUA e Coreia do Sul), escondeu-se atrás de uma carcaça, atrás de um campeão do mundo (o Brasil venceu esse Mundial-02, com Scolari a seleccionador). Isso é atirar areia para os olhos dos outros. Desculpe lá, mas apetece-me partir a loiça toda. Nasci aí, em Portugal, e não aceito que arruínem o nosso futebol.
«10 Curiosidades»:
- ganhou a Bota d’Ouro do campeonato belga, depois de ser considerado o melhor jogador da época 2004/2005;
- estreou-se na Selecção nacional em Novembro de 1996, num jogo em que Portugal ganhou (1-0) à Ucrânia;
- fez um «hat-trick» no jogo em que Portugal derrotou a Alemanha, no Euro 2000;
- em sua homenagem existe o Estádio Sérgio Conceição, em Taveiro, Coimbra;
- foi lançado pelo actual treinador do Benfica, Jorge Jesus, na estreia do Felgueiras na Primeira Divisão, em 1995;
- foi titular numa Lázio campeã de Itália, e onde despontavam nomes como Alessandro Nesta, Sensini, Fernando Couto, Simeone, Almeyda, Nedved, Stankovic, De la Peña, Mihajlovic, Boksic, Mancini, Vieri, Véron, Marcelo Salas ou Ravanelli...
- protagonizou um caso polémico de agressão a um árbitro, que lhe valeu uma punição de alguns meses quando representava o Standard de Liége;
- passou 11 anos da sua carreira a jogar no estrangeiro;
- no jogo de estreia pela Lazio, foi o grande responsável pela vitória sobre a Juventus, na Supertaça italiana, marcando o golo da vitória aos... 93 minutos!
- o seu treinador preferido é o italiano Arrigo Sacchi;
Em cima, recuperámos algumas fotos que ilustram alguns momentos do percurso de Sérgio Conceição enquanto jogador. Destaque para 3 fotos: onde surge com a Bota d'Ouro (melhor jogador do campeonato belga); ao lado de Michel Preud'homme, no dia da sua apresentação como jogador do Standard; e na última, a despedir-se dos adeptos do PAOK, com uma vénia!

2 comentários:

Paulo Moreira disse...

Pena que na segunda passagem pelo FC Porto não lhe terem dado a oportunidade que bem merecia.
Sobre o scolari e a fpf, é um dos muitos jogadores que poderiam escrever um livro sobre a vergonha que foi esses tempos.

Abraço

Anónimo disse...

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